“Não, não é isto: quer-se a paisagem humana que está do outro lado dos sobretudos, dos chapeus e das luvas - essa coisa problematica e evidente aqui alguns insistem em dar o nome de alma. Tarefa dificil, sem duvida, ambição desmedida, chegar-se de turista a um lugar e ir-se a procura, justamente, dessa coisa tão frágil e misteriosa, que ora se acende e logo se esconde, com inapreenssivel fogo-fátuo!
Anda-se, anda-se, anda-se, a procura de almas. E os homens são contraditórios, me toda parte. Desdizem-se a cada instante. Contrapõe-se. Mudam com as nuvens. Pensam de tantas maneiras! Opinão com tantas volubilidade! Com uma superficialidade tão culpavel e tão inocente!
Nos assuntos de pensamento as efigies possuem uma faculdade surpreendente: seus perfis não concordam nunca. Os que estão de um lado vêem todo o mal de uma coisa - como, os que estão do outro, todo o bem. Nem os intelectuais estão a salvo. Muitas paixões movem os homens e todas os conturbam - mesmo as mais nobres…” Cecília Meireles, Crônicas de Viagens